Deixem estas asas crescer!

Por Natalia Silva - abril 21, 2018

Lembro-me bem da primeira vez que fui ao ginásio (também difícil seria não lembrar visto que ainda é algo recente).

Tinha em mente trabalhar um pouco pernas e glúteos. As pernas porque desde a adolescência que tenho a barriga das pernas e os tornozelos bastante inchados e os glúteos porque começaram a "sofrer os efeitos da gravidade"...

Sucede que o Instrutor presente na sala de musculação resolveu também pôr-me a experimentar as máquinas destinadas a braços/costas e eu logo protestei: "não tenho força de braços e não quero ficar com os braços musculados". Ele logo adiantou: "não se preocupe que não chega aqui e fica musculada e além disso se tem pouca força de braços mais um motivo por que devia trabalhar nisso". Ainda meio contrariada lá acabei por concordar.

Ainda nem sequer tinham passado dois meses desde que iniciara o meu plano de treino e o mesmo Instrutor dirigiu-se a mim e deu-me os parabéns pois já eram perceptíveis as diferenças e, bastante estupefacto, questionou-me se tinha muito cuidado com a alimentação.

Na verdade nunca tive, sempre comi de tudo e a minha mãe sempre fez "comidinha de engorda", com muita batata, ora na sopa ora na massa para dar goma e às vezes até no arroz. Nos assados havia sempre batata e arroz. Com feijoada, com cozido à portuguesa e papas de sarrabulho havia sempre arroz a acompanhar. E comia também muito pão e muita fruta. Depois que casei consumia demasiados doces (quando vivia com os meus pais as gulodices eram limitadas mas depois que casei comprava de tudo... comia aos baldes de pipocas (às vezes nem ia ao cinema mas comprava as pipocas e trazia para casa), caixas de chocolates, batatas fritas de presunto, cheetos palitos e futebolas, croissants, bolachas mega calóricas de todos os tipos e feitios e eu até me intitulava de "monstra das bolachas", bolas de berlim, caramelos com cobertua de chocolate, etc.). Felizmente não tenho predisposição para engordar, caso contrário a esta altura devia rebolar...

Limitei-me a dizer-lhe que tinha cortado nos doces e começado a seguir a dieta do meu marido (em quantidades menores). Perguntou também se não estava no primeiro plano de adaptação e quando eu acenei afirmativamente com a cabeça ele sugeriu que me dedicasse ao fisiculturismo que tinha uma boa genética. Sorri e disse-lhe que não tinha tempo para me dedicar a isso dado que só consigo fazer dois treinos por semana e ocasionalmente três.

Mais tarde o PC Jorge Flandres referiu-me que um amigo dele também reparou nas minhas costas, que estavam desenvolvidas e ficaram a achar que provavelmente eu já tinha treinado, por algum motivo parei e agora retomei os treinos. Quando lhe disse que não, ele falou que ninguém ia acreditar que só estava a treinar há dois meses... que tinha uma boa genética e que devia amadurecer a ideia do fisioculturismo.

Pouco tempo depois a PT e Instrutora Mariana do Liberty dirigiu-se a mim e perguntou-me se eu estava a treinar para algum concurso. Eu confesso que ao início não entendi muito bem a pergunta dada a minha ignorância nessas matérias, não sei quando nem que concursos existem (embora desde que comecei a frequentar o ginásio também começasse a seguir algumas meninas no insta, inclusivamente a ela, que treinam regularmente e participam em concursos) e lá lhe respondi que não. Expliquei que comecei apenas a fazer companhia ao meu marido nos treinos e dei-lhe conta que ainda não consigo executar alguns exercícios. Ela foi muito atenciosa e auxiliou-me demonstrando como fazer os exercícios de forma correta e também falou que eu tinha uma boa genética.

Em tão pouco tempo ter tanta gente a dizer que eu tinha uma boa genética deixou-me feliz. Até então quase só o meu marido me dizia isso. Ele e uma colega de trabalho que reparava nos meus lanches mega calóricos (ferradura de chocolate, chausson de maça, madalenas, bolachinhas waffles com creme de chocolate de avelã) e ficava admirada por eu estar magra apesar disso...

Cresci num meio em que ser magro é ser feio, em que se referem a ti como "seca", "tísica", "pau de virar tripas", "tremedal", "lengrinhas", "estresicada", "escanzelada", "cangalho", "raquítica"... E eu para ajudar (até casar) sempre fui desleixada com a imagem e usava roupas antiquadas e desadequadas ao meu corpo... Sempre valorizei a essência em vez da aparência (para terem uma ideia quando conheci o Tiago ele pesava mais de 100 kg e isso não foi entrave para eu o querer conhecer melhor e ele também nunca se mostrou incomodado com os meus 49kg da altura)...

Hoje sei que quando as pessoas maldosas invejam aquilo que nunca vão ter porque não têm a força de vontade suficiente para mudar, atacam e procuram rebaixar quem está bem melhor que elas...

Agora percebo que afinal só vivia rodeada de idiotas!

Relativamente às minhas costas é daquelas coisas que primeiro estranha-se e depois entranha-se!


E sabem que mais?

Deixem estas asas crescer! :D

  • Partilhar:

Também poderás gostar

0 comentários